“Sapateiros do Bem” da Feevale: projeto transforma realidade de pessoas com confecção de calçados

A indústria calçadista acompanha a história do Vale do Rio dos Sinos, localizado na Região Metropolitana de Porto Alegre, desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães ao Rio Grande do Sul, a partir de 1824. O que era um trabalho artesanal de utensílios de uso pessoal, passou, aos poucos, a expandir o comércio até tornar o Vale dos Sinos uma das principais regiões do setor no Brasil.


Porém, a crise econômica iniciada em 2008, somada ao avanço da China no mercado calçadista, culminou no fechamento de várias empresas regionais e, como alternativa, surgiram negócios menores. Com equipes reduzidas, funcionários que estavam habituados a trabalhar em uma única função, se depararam com a necessidade de um entendimento geral do processo. Nesse contexto, a Universidade Feevale criou o projeto de extensão "Pró-fábrica".


Com o intuito de qualificar profissionais para as exigências do mercado de trabalho, a atividade conta com cursos sobre diferentes etapas do processo de confecção de sapatos. As aulas acontecem nas terças e quintas à tarde, são gratuitas e abertas à comunidade em geral.



Alunos e participantes do projeto Pró-fábrica, da Feevale (Foto: Jaqueline Kunze)

Alunos dos cursos de Engenharia, Design e Moda ganham horas complementares ao participarem voluntariamente. Alguns se tornam bolsistas remunerados, como Manoela dos Santos, estudante de Moda, que também participou de outra oficina oferecida pelo projeto, voltada à confecção de bolsas. Um dos acadêmicos voluntários, Eron Medinger, comenta que essa oportunidade complementa o aprendizado em sala de aula, uma vez que no curso de Moda não há acesso a todas as etapas da produção de calçados. 


No grupo, todos se ajudam, trocam conhecimentos e histórias de vida. Na sua primeira aula, Julie Dullius, aluna de Artes Plásticas, ficou surpresa com o estilo prático da atividade: “O que foi bom, eu gosto de coisas práticas. Cheguei e já me botaram para cortar e colar coisas”.

Naldo da Silva orienta os novos colegas, os ensinando o que aprendeu ao longo de quatro anos no projeto. Ele confecciona suas próprias alpargatas, chinelos, cintas e outros utensílios gauchescos, e conta que, inclusive, já consertou sapatos de colegas durante os encontros.


Impacto social

Na Campanha do Agasalho de 2019, a Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo doou 500 pares de calçados reformados pela equipe do Pró-fábrica. Sapatos desgastados, com manchas e descosturados passaram por uma transformação e chegaram a quem realmente precisa parecendo novos.

A ação social distribuiu, ao longo de quatro anos, em torno de 2 mil pares de calçados para comunidades carentes, o que rendeu ao projeto o apelido de Sapateiros do Bem. “Eu fico muito feliz de poder participar e de ver que aquilo que fiz vai ajudar muitas pessoas”, diz Eduarda Haas de Mello, instrutora de calçados, que também enfatiza o caráter sustentável do projeto, ao reutilizar materiais que seriam descartados.


Conhecimento que transforma

Assim como os primeiros imigrantes do Vale do Rio dos Sinos fizeram há séculos, alunos do projeto transformaram aprendizado em oportunidade de negócio. “Alguns alunos estão empreendendo individualmente, abrindo sapataria no seu bairro, fazendo uma pequena produção na sua comunidade, na sua igreja, em alguma feira”, fala Roberto Schilling, coordenador da ação de extensão.


Luiz Carlos Robinson, professor universitário que ensina nas oficinas, ao relembrar os oito anos de projeto, percebe a importância do que foi construído e se emociona. Para ele, é gratificante perceber que o Pró-fábrica, além de desempenhar um viés assistencialista, ainda contribui para que seus alunos empreendam e consigam vagas no mercado de trabalho.


Antes de conhecer os “Sapateiros do Bem”, Sandra Vargas produzia etiquetas para roupas. Ganhava R$ 6,00 para cada mil peças e chegou a trabalhar 15 horas diretas. Com o conhecimento adquirido nas oficinas passou a confeccionar chinelos e sandálias para vender a amigos e conhecidos. A iniciativa cresceu e hoje ela produz em torno de 25 pares de tênis por semana, trabalha menos e tem seu próprio negócio. “Foi um divisor de águas em minha vida”, relata, agradecida.


Claudiomiro Nogueira e Sidnei de Oliveira finalizaram todos os módulos do curso e continuam a frequentar as aulas. O comerciante Claudiomiro cria seus próprios modelos, com o objetivo de, até o final do ano, vender produtos artesanais, feitos com exclusividade a pedido do cliente.

Já Sidnei, projetista de arquitetura aposentado, comparece às aulas para pôr em prática o que aprendeu e aproveitar o tempo com algo que gosta. Apesar de fabricar alguns pares de calçados e vendê-los a conhecidos, se interessou pelas aulas em razão de uma pendência antiga que tinha consigo mesmo.


No passado, teve a oportunidade de aprender sobre a produção com um comerciante que confeccionava sapatos italianos à mão. No entanto, em razão do emprego que tinha na época e do cansaço, não aceitou a proposta. Com o tempo se arrependeu dessa escolha e, por isso, assim que soube das oficinas na Feevale, não deixou a nova oportunidade passar.


Fonte: Quero Bolsa

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